No dia 28 de dezembro chegamos em Santiago e no mesmo dia partimos, (eu, Rodrigo e nosso hijo Andrezito), para cidade litorânea de Pichilemu.
Pichilemu foi escolhida (não por mim, of course!) por ser muito conhecida pelas suas ondas grandes. Existem 3 picos de onda: La Puntilha (que foi onde ficamos), Infernilho (poucos metros de La Puntilha) e Punta Lobos, o mais conhecido por ser o point mais tradicional das ondas gigantes do Chile e fica a 6 km de La Puntilha.
Porém, ao chegar em Pichilemu fui tomada por uma onda de aflição: a cidade em plena temporada parecia uma cidade fantasma! A pousada, recomendada por um amigo, tinha cerca de 10 quartos com camas pulguentas e 1 banheiro (chheeeio de areia preta) para ser compartilhado. O céu era cinza e o tempo gelado e a minha primeira providência foi trocar o meu look verão para uma calça e um casaco bem quentinhos. E a segunda, foi dizer ao Rodrigo que eu estava voltando para Santiago. Mensagem entendida, mudamos de hospedagem e alugamos um chalezinho com dois quartos, uma cozinha e um banheiro. Menos mal! (endereço dos chalés: www.santairene.cl)
Chegar em Pichilemu me fez entender porque o meu amigo Ricardo nunca quis que a Gi, sua namorada, fosse com ele surfar nas praias peruanas. Acho que boa parte das praias da América do Sul, banhadas pelo pacífico, têm essas características: areia preta, água gelada e paisagem desértica. Sem contar a infra-estrutura: esqueçam restaurantes e pousadinhas charmosas e românticas!... Neste cenário, não esqueçam que estamos numa surf trip, então enquanto vc procura se entreter sozinha de alguma forma na areia, eles passam horas e horas surfando... E, se não bastasse, quando saem da água passam horas e mais horas conversando sobre assuntos super interessantes como: surf, swell, ondas, direção do vento... óótttemo!!!
Como eu já conheço este enredo, sempre tenho pelo menos um livro para me entreter na areia... Dessa vez, o meu companheiro foi Comprometida da Liz Gilbert, que infelizmente terminou no terceiro dia, já que as sessões de surf eram demasiadamente longas.
Liz, como eu, adora cascavilhar, aprofundar, se torturar e complicar mais o que já é complicado. Eu, em Pichilemu, estava com a cabeça afetada pelas inúmeras indagações de Liz e cercada pela super praticidade masculina. Às vezes, cansada do disco furado “onda”, “surf”, “swell”, eu lançava algumas discussões despretensiosas. Exemplo: um estudo mostrou que as mulheres casadas tinham mais depressão, morriam mais cedo e ganhavam menos que as mulheres solteiras. A estatística para os homens mostrava justamente o contrário, os casados tem menos depressão, vivem mais e ganham mais... O André, que coincidentemente estava lendo “comer, rezar e amar” (indicação da professora-gatinha de pilates para os homens entenderem melhor a alma feminina), achava a Liz uma chata-deprimida-mal comida. Para ele o livro era cheio de detalhes desnecessários, e foi difícil passar da parte da Itália e estava mais difícil ainda passar a parte da Índia. Ele não entendia porque ela não deu para o italiano, o que ela precisava era de sexo descompromissado para parar de reclamar e procurar problemas onde não existem. Muito sensível, hem?!
Até o reveillon os dias se passaram assim: lendo na areia (por hooooras), dias bem frios, surf (para eles), caminhadas de 6 km diárias para Punta Lobos (como na próxima semana nos esperavam pelo menos 90 km de caminhadas, precisávamos treinar as perninhas), vinhos (rose para mim, tinto para eles) e os nossos ranguinhos diários na mini cozinha do chalé. A comida diária costumava ser peixe, em especial a reineta, A reineta é uma delícia e preparávamos no forno, na manteiga, como ceviche ou como caldo de peixe. Estava tudo até bem agradável, clima semana de chuva na Guarda-do-Embaú.
A virada do ano passamos nas areias de Pichilemu, curtindo a queima de fogos da prefeitura. Essa parte foi divertida! Librinados por garrafas de vinho chileno, gritávamos um “Feliz Año Nueno” de língua enrolada e confraternizávamos com nossos hermanos chilenos. Mas a bebida ficou exagerada, as energias testosterônicas do meu marido e do meu hijo Andrezito se convergiram e eles voltaram a ter 18 anos de idade e se comportarem como tal. Cansei e fui para casa passar a minha primeira noite de 2011 emburrada!
No primeiro dia de janeiro, enquanto passamos boa parte do dia dormindo embaixo de diversas camadas de cobertor para curar a ressaca, Pichilemu provavelmente viveu o dia mais agitado de 2011. As areias pretas foram tomadas por milhares de chilenos, que pareciam não notarem que tinha um ar-condicionado geladíssimo ligado na praia. Todos se comportavam como se estivessem sob um sol de rachar, em uma praia do nordeste brasileiro, com águas muy calientes.
O dia seguinte foi um dia especial, pois foi o primeiro dia de sol desde que chegamos! E que sol! A proximidade do sul da terra com o sol nessa época do ano, bem como o achatamento das extremidades do globo, faz com que o sol incida de maneira muito violenta, e até nos dias cinzentos, o uso de grossas camadas de FPS 50 não evitavam narizes e bochechas rosadas. Mesmo assim, o aparecimento do sol fez Pichilemu se transformar numa cidade colorida e vibrante, ao contrário da sensação monótona que as cores monocromáticas do céu acinzentado provocavam.
No dia 3 de janeiro apareceram as famosas ondas gigantes, que fazem Punta Lobos ser tão comentada entre os surfistas. Ao chegar na praia, a sensação eufórica dos meninos foi transformada em decepção... Quando eles se depararam com essas enormes paredes de água, eles caíram na real que era outro tipo de surf, e as suas pranchas não haviam sido feitas para enfrentar ondas com o tamanho de uma casa de 2 andares.O que eu achei ótimo, pois já estava suficientemente agoniada com alguns caldos de pouquíssimos estranhos que se encontravam no mar. Embora não tenha como não vibrar ao ver um pontinho de gente descendo habilidosamente uma montanha de água.
Para não deixar a impressão que André e Rodrigo são dois surfistas cagões-merrequeiros, pela tarde (depois de uma terrível depressão por não terem surfado Punta Lobos... depois Liz Gilbert é que faz tempestade em copo d’água, hem?!) eles resolveram cair no pico de surf próximo a nossa cabaninha em La Pontilha. As crianças saíram felizes e animadas d’água com as ondas “3 over head” que eles pegaram. Eu também estava feliz porque a temporada de surf da viagem estava terminando e junto o meu período de mera coadjuvante insignificante. O próximo dia seria o dia de voltar para Santiago e pegar um ônibus com destino a Mendoza na Argentina.
Aqui uma dica! Ficamos na dúvida se alugávamos um carro ou ficávamos dependentes de ônibus e taxis. Optamos por andar de ônibus e taxis e acredito que tenha sido a melhor opção em termos econômicos. O aluguel de carro é caro, enquanto taxi e ônibus vc fica até confuso se entendeu direito o valor pois costumam ser bem em conta!
Então no dia 4 pela manhã pegamos um ônibus para Santiago e depois partimos para Mendoza. Passamos ao total 9 dias na Argentina e depois retornamos novamente para Santiago, onde ficamos mais 2 dias antes de pegarmos nosso vôo para o Brasil.
Já que esta é a parte sobre o Chile, segue antecipadamente minhas impressões sobre Santiago.
Chegamos em Santiago no dia 14 pela manhã, depois de termos passado a noite inteira viajando de ônibus. O hotel que reservamos estaria disponível a partir das 14 horas, então ficamos (novamente eu, Rodrigo e nosso hijo Andrezito) perambulando cansados e um pouco mal-humorados por Santiago. Rodrigo queria dar uma enrolada no tiozinho que cuidava da piscina do hotel e ficar estirado por lá, Andrezito parecia um japonês sacando fotos, e eu queria simplesmente passear descompromissadamente pelos parques e ruas de Santiago. Eu sei que o calor estava infernal, mas já que estávamos ali.... Passamos por uma igreja antiga, por uma bandeira gigante do Chile e chegamos em frente ao museu de belas artes. Lá tinha um lindo parque, sugeri que poderíamos descansar por lá. O mal humor coletivo masculino ralhou de mim dizendo que aquela grama estava cheia de cocô de cachorro. Então tá! Então fomos ao tão falado mercado público de Santiago. Sinceramente, não sei porque tanto alarde de “vcs precisam conhecer o mercado público de Santiago”. O lugar é um mercado de peixe fedorento, que não respeita as mínimas condições higiênicas-sanitárias e de instalações. Almoçamos por lá mesmo, mas nada de mais... Na realidade, como havíamos acabado de voltar da Argentina, fica difícil não comparar preço, estrutura e qualidade. Resumindo, Chile ou Argentina? Do que eu conheci, prefiro a Argentina! Além disso, mil vezes o mercado público de Floripa, mais limpinho, organizado, agradável... mais tudo!
Como o desânimo estava geral, fomos dormir a tarde toda no hotel. Acordamos para jantar num restaurante bacana de comida patagônica que ficava em um calçadão (adoro isso!). Estava tudo delicioso, mas novamente as comparações: “em Mendoza esse vinho custava a metade e o bife também”, “em Mendoza eles atendiam muito melhor, que garçom lesado!”, e assim por diante...
Eu ainda tinha duas programações para Santiago: a vinícola concha e toro e conhecer um shopping de artigos esportivos que os Argentinos diziam que era super barato.
A ala masculina estava cansada e queria apenas ir para o shopping. Até porque o que estavam cobrando para conhecer a Concho y Toro estava muito salgado para o final de uma viagem. Então, no nosso último dia de viagem fomos para o tal shopping. O dia começou meio estressado, eu louca para sair do hotel (afinal já era quase meio-dia) e os meus queridos companheiros estavam irritantemente lentos. Eu briguei com o Rodrigo. O Rodrigo brigou comigo e o André o defendeu. Então deu para imaginar o climão que se passou o resto do dia.
O tal shopping era do outro lado da cidade e nada barato, além disso, fiquei irritada duplamente pois André e Rodrigo queriam ver tudo o que não eu não queria ver. Resumindo: a vela era eu, não o André, eles irritantemente se uniram, me excluíram, faziam apenas o que queriam e me rotulavam de chata.
Retomando algo que eu disse no início do relato do Chile, esse comportamento de cumplicidade masculina, só reforçou a idéia de que existem viagens para ele e para ela. Eu amo viajar, mas a próxima viagem em que eu me ver cercada exclusivamente de homens eu irei ponderar. Mesmo casada, é claro que o Rodrigo prefere fazer coisas de meninos do que de meninas, da mesma forma, é muito mais fácil ele se indispor comigo do que com um amigo. O que acontecia? Se o programa agradava os três, ok! Se o programa só agradava a Mel, forget! E coincidentemente, sempre os dois estavam de acordo com os programas, e se a Mel não quer, problema dela! Mas isso são águas passadas... Relembrando uma frase de Comprometida : “Dá para medir a felicidade de um casamento pelo número de cicatrizes que cada parceiro tem na língua, conseguidas durante anos de mordidas para não deixar sair palavras raivosas”.
Mas algo que realmente me encantou no Chile foi o povo. Em geral, são todos muito simpáticos! Mesmo na capital, as pessoas têm uma despreocupação que aqui só encontramos em gente do interior. Todos no parque até altas horas, namorando, passeando nas ruas... aqui a gente está sempre desconfiado, olhando para os lados... viver sem paranóias de violência deixa todos muito mais leves e abertos para serem simpáticos e receptivos!
O Chile foi bom. Gostei. Mas não amei. Talvez pelas circunstâncias, talvez pelas comparações com a Argentina, talvez porque não fui conhecer o lado do Chile que mais me atrai. De qualquer forma, que bom que ele fica aqui do lado e novas oportunidades de passar por lá virão...
Reineta
Pichilemu cinzenta
Feliz Año Nuevo!!!
Reparem no pontinho de gente - Punta Lobos